As eleições norte-americanas surpreenderam sob vários aspectos e a tendência
é que haja mesmo um câmbio na condução da principal potência bélica do
planeta. A derrota de Donald Trump não foi estrondosa como pregaram os
videntes travestidos de analistas, mas será suficiente para gerar uma nova
onda de expectativa em torno dos rumos que adotarão os EUA.


Os primeiros nomes anunciados por Joe Biden, serviram para aumentar o
otimismo em torno das novas posições a serem adotadas por Washington. No
entanto, a declaração do presidente eleito dizendo que “os EUA estão de volta,
prontos para liderar o mundo”, tampouco encontram eco. O mundo que não
quer a imprevisibilidade e estridência de Trump, também rejeita a liderança
norte-americana. O mundo quer respeito aos princípios da diplomacia.


Nos últimos anos, o nacionalismo cresceu vertiginosamente. Os países, como nos lembra Henry Kissinger, têm buscado atender quase que exclusivamente
os seus próprios interesses. Hoje, há muito mais competição que cooperaçã
e, o que é absolutamente triste, há poucos sinais mostrando que essa
tendência estaria mudando.


Kissinger vai além: “O que, sim, é novo na ordem das coisas é que, pela
primeira vez, os EUA não podem nem largar do mundo nem dominá-lo”. Isso
significa que é preciso buscar-se o equilíbrio, algo que só é possível com
diplomacia. Madura, transparente e objetiva. O mundo não quer os EUA como
seu xerife. Quer os EUA como aliado na cooperação que permita reduzir tensões, eliminar conflitos, e permitir o desenvolvimento baseado nas
oportunidades e não na competição desenfreada.


“A diplomacia bem exercida pode conseguir o que com a força não seria
possível”, afirma o coronel espanhol Pedro Baños, um dos principais
estrategistas militares europeus, em “El Domínio Mundial: elementos del poder
y claves gepolíticas”. Ele vai além: “Uma diplomacia deficiente é incapaz de
evitar uma guerra, cujos resultados são sempre incertos”. As advertências de
Baños, servem para os todoo, inclusive o Brasil, especialmente em suas
relações com os EUA. E é preciso respeitar o tempo da diplomacia que é bem
diferente do tempo da política interna.


Biden sinaliza o retorno norte-americano ao multilateralismo e aos grandes
acordos. Isso é bom. Também para o Brasil.


No corpo-a-corpo, como se diz no futebol, vamos perder. Todos os países
pequenos, irão perder. Em um mundo ordenado por regras, até mesmo o maior
de todos terá de se submeter. O mundo espera isso de Joe Biden e dos EUA.
Que a grande potência seja capaz de colocar o bem estar de todos acima de
disputas pontuais.


Com o Brasil, não será diferente. O país precisa eleger melhor suas batalhas,
saber onde, como e por quê meter-se em determinadas brigas. Há muita
confusão que não nos interessa e precisamos ser inteligentes para não nos
envolvermos e não sermos envolvidos. Cada passo, precisa ser avaliado sob a
ótica do interesse nacional e da importância estratégica.
É preciso, ainda, entender que o ambiente interno deve manter-se estável para


que haja confiança externa, para que sejamos ouvidos nos fóruns
internacionais e para que isso se converta em resultados objetivos para o
conjunto da população. E isso tem a ver com imagem também.


Pedro Baños recorda que “uma imagem de solidez, estabilidade e império da
lei atrai investimentos e turismo, além de afetar as exportações e o modo como
são recebidas as empresas em outros países”. Os EUA são profissionais nesta
arte. Nós, meros amadores.