O clima de tensão e instabilidade deixa na boca o gosto amargo do medo. Pelas ruas poeira e escombros. O silêncio pode a qualquer momento se converter em altíssimos e mortais decibéis: tiros, bombardeios e explosões, que fazem tremer os prédios, a terra e as carnes, deixando como rastro o sangue dos civis inocentes.  Longas filas dos desesperados que buscam ajuda humanitária, no fundo dos olhos destas pessoas há o mesmo tom cinzento do medo. Refugiados caminham sem destino levando suas crianças nas costas; clamam pelo exílio em países vizinhos. Saem de sua terra, deixando para trás, suas casas e seus bens mais preciosos: sua história e sua identidade. Crianças órfãs caminham sem direção, pais enterram seus filhos e a penumbra da destruição paira; sobre os escombros soterrados os bens, os sonhos e a esperança; vidas completamente transformadas em um imenso mar de incertezas.

Ler este relato certamente nos remonta ao conflito na Ucrânia. É certo que acompanhamos desde as primeiras horas do dia 24 de fevereiro deste ano (2022), as ações do presidente russo Vladimir Putin em território ucraniano. Ao toque da ponta de nossos dedos tivemos acesso em tempo real aos acontecimentos, um bombardeio de notícias atualizado pela tela do celular “on time”. Temos acesso a todo o tipo de informação: pronunciamentos do presidente Zelensky, fotografias dos bombardeios, imagens dos refugiados, além de matérias que relatam a história da região e os motivos do conflito e os efeitos atuais e futuros na economia mundial e nacional.

No entanto, hoje no mundo existem aproximadamente 28 países que estão passando por conflitos ou registram violentos combates armados. Sobre tantos conflitos e violência a grande mídia de massa nos oferece O SILÊNCIO. Na mesma semana do ataque russo à Ucrânia, países como o Iêmen, Síria e Somália, também registraram ataques aéreos. Diversos conflitos étnicos e guerras civis assolam a muito tempo áreas do continente africano, Ásia, Oriente Médio e América Latina. Sobre eles, ouvimos muito pouco da grande mídia.

Mapa 3. Mundo em conflito. Incluídos conflitos armados entre forças do governo, entre governo e rebeldes e entre rebeldes. Dados até 11.fev. Fontes: Acled e Ipsos

Na África, a guerra civil do Iêmen é considerada pelo ACNUR (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados) como “a maior crise humanitária do mundo” atual, com estimativa de cerca de 377 mil mortos, o país tem cerca de 3,6 milhões de deslocados internos. No mesmo continente, a guerra civil na Etiópia tem simplesmente destruído o país gerando uma imensa onda de violência e insegurança social. A atuação do grupo terrorista Boko Haram – organização fortemente militarizada com o objetivo de erradicar a ocidentalização no país – na Nigéria, gerou mais de 20 mil mortos e quase 2 milhões de refugiados. Além disso, novas frentes Jihadistas no Congo e em Moçambique tem gerado conflitos entre os Estados e os militantes islâmicos.

A região do Sahel, – localizada entre o Deserto do Saara e as savanas do sul – também merece destaque. O local conta com a presença de diferentes grupos étnicos e é palco de constantes ameaças terroristas, limpezas étnicas e extrema violência. O conflito é impulsionado principalmente por uma insurgência jihadista centrada nos estados de Burkina Faso, Mali, e Níger, que são os mais afetados pela crise.

No Oriente Médio a situação não é mais amena. O Afeganistão encontra-se mergulhado em uma situação de guerrilha e destruição desde a retomada do Talibã ao controle do territorial. A ONU estima que cerca de 23 milhões de pessoas do Afeganistão (metade da população do país), poderão passar fome nos próximos meses. Vimos também em 2021, a intensificação do conflito Israel-Palestina, nas regiões de Israel e Gaza; e em cidades como Jerusalém, Cisjordânia. Todos esses conflitos fortemente agravados pela pandemia da COVID-19 que acentuou a crise humanitária aumentando a falta de insumos, a desigualdade e o desemprego, promovendo o aumento o custo de vida.

Na Ásia temos o aprofundamento da crise política em Mianmar que está ocasionando a desobediência civil e ataques armados. Na América Latina temos os casos do Haiti, Colômbia e México, o primeiro vivenciando uma antiga instabilidade política, além de guerra civil e desastres naturais como ciclones e terremos de alta magnitude, os demais vivenciando conflitos de guerrilhas associadas ao tráfico internacional de drogas.

Poderíamos continuar listando; estes são apenas alguns dos conflitos geopolíticos e guerras civis que tem ocasionado altíssimos níveis de violência nesses territórios, mortes de sua população e deslocamento de grandes massas de refugiados, no entanto, sobre eles, paira certa seletividade midiática. Talvez encontremos a razão de tal seletividade em variáveis como o preconceito social, cultural e étnico; o racismo e a xenofobia.

No conflito entre Rússia e Ucrânia, uma parte dos refugiados não tem conseguido facilmente acessar a fronteira com a Polônia, e o motivo é simples: eles não são caucasianos. Dias atrás tivemos acesso pelo noticiário da TV aberta, a uma reportagem que apresentava a situação de africanos que não conseguiam passar na fronteira. Fica claro que há a seletividade de acolhimento de refugiados – a própria Polônia, impede a entrada de refugiados vindos do Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria.

 O racismo velado se faz presente no discurso da mídia internacional, quando em suas transmissões enaltece votos de solidariedade às pessoas que fogem da guerra, adjetivando-os como: “Cristãos, de olhos azuis; europeus; parecidos conosco”. No dia 25 de fevereiro o canal de TV CBS News dos EUAapresentou o seguinte comentário dentro da cobertura do conflito:

“Este não é um lugar, com todo o respeito, como o Iraque ou o Afeganistão, que tem visto conflitos violentos há décadas. Esta é uma cidade relativamente civilizada, relativamente europeia, cidade onde você não esperaria isso!”.

Frase que demonstra claramente o preconceito social, cultural e étnico, além da xenofobia. Como se os povos da África, América Latina e do Oriente Médio fossem menos civilizados e merecedores das mazelas sociais, políticas e da violência. Uma clara e sórdida herança de um passado colonial e de dominação europeia e norte americana sobre estas áreas, que refletem ainda hoje a dominação através de uma mentalidade que se configura em discurso preconceituoso.

Essas questões que precisam ser discutidas e colocadas à luz da crítica, principalmente pelo fato de que os Direitos Humanos e naturais precisam ser rigorosamente respeitados. É inconcebível que uma imensa massa de refugiados que abandonam sua terra natal por conta da guerra e se encontram em situação de extrema vulnerabilidade social, ainda precise lidar com preconceitos históricos e sociais arraigados e que afetam diretamente sua assistência e seu acolhimento. Esses sujeitos são respaldados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e é fundamental que exista igualdade no tratamento das questões humanitárias, dos conflitos e dos refugiados no mundo.

Os conflitos geopolíticos são uma dura realidade, a xenofobia e o racismo também, no entanto, o nosso posicionamento ético e político precisa estar alinhado aos direitos humanos e à justiça social. Desta forma, devemos trazer à luz tais conflitos e combates; discutindo e denunciando a violência, a fome e as mortes que elas trazem às suas populações, pois não é possível existir seletividade no bem mais precioso da humanidade: A VIDA!

Fabrício Robson de Oliveira

Especialista em Direito Internacional; Bacharel em Direito; Téc. Enfermagem e Pesquisador em Segurança e Defesa

fabricio_robson@hotmail.com

Mariane Motta Ferreirinha

Licenciada e mestre em Geografia e especialista em dinâmicas urbano-ambientais e gestão do território

marianemotta23@yahoo.com.br

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