Os desafios para um governo de esquerda na Colômbia

por | ago 9, 2022 | 15h

Pela primeira vez em sua história, a Colômbia elege um presidente de esquerda. Polarizado e dividido, com grandes traumas provocados por mais de 50 anos de guerra civil, a Colômbia de hoje gera muitos incertezas e dúvidas quanto ao seu futuro

Desde de esse domingo, 7, a Colômbia tem como presidente, um ex-guerrilheiro de esquerda, ex-senador e ex-prefeito de sua capital, Bogotá. Gustavo Petro, de 62 anos, tem seríssimos desafios pela frente. Com cerca de 50 milhões de habitantes, a Colômbia é um país polarizado e cujas cicatrizes dos mais de 50 anos de guerra civil, seguem abertas.

Trata-se de uma sociedade que respira injustiça. Injustiça para os mais pobres e para as vítimas da violência representada, ora por organizações criminosas convencionais, ora por grupos guerrilheiros, a elas associados. E também muita injustiça social, com a negligência e a ausência histórica do Estado.

Em seu discurso de posse, Gustavo Petro defendeu o fim das divisões políticas e ideológicas na América Latina e afirmou que é hora “de deixar para trás os blocos, os grupos e as diferenças para trabalhar juntos”, assegurou. Ele revelou, ainda, que a Colômbia irá voltar-se para a África e o mundo árabe e que todos os futuros embaixadores do país no Caribe, serão afrodescendentes.

Ainda não se sabe ao certo qual será a relação dessa Colômbia com os EUA. Historicamente, o país tem sido o principal aliado militar de Washington na América Latina. A Colômbia é o país que mais recebeu ajuda financeira e militar ao longo das últimas cinco décadas.

Como muitos sabem, na política internacional, os símbolos dizem muito. Para a posse de Petro, os EUA enviaram a chefe da USAID, braço civil da CIA, Samantha Power, uma funcionária de terceiro escalão. Pode ser um sinal do que está por vir. Dificilmente, os EUA irão abandonar a Colômbia, mas tampouco têm lidado bem com as mudanças em curso.

Para o Brasil, o futuro da Colômbia importa muito. Dividimos uma fronteira de quase 2 mil km, de difícil acesso e onde há presença confirmada de guerrilheiros e do crime organizado. Os dois países, queiram ou não, estão condenados pela geografia, a trabalharem juntos. Voltando ao simbolismo, Jair Bolsonaro não compareceu à posse do esquerdista Petro e enviou o ministro das Relações Exteriores, Carlo França.

“Entendamos de uma vez e para sempre que é muito maior o que nos une do que aquilo que nos separa. E juntos, somos mais fortes”, pregou o presidente colombiano. A fala não é nova. Já foi dita por outros líderes de esquerda e de direita e não passou de retórica.

Gustavo Petro mostrou-se indiferente aos EUA e preferiu prestigiar as autoridades políticas mais próximas às suas preferências ideológicas, derrubando, ele mesmo, o próprio discurso. Portanto, ao pedir o fim das divisões políticas na região, ele apenas exercitou uma narrativa.

Outro exemplo dessa retórica, está na retomada da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), fórum criado por inspiração cubana para reinserir a ilha no sistema interamericano. A CELAC, a exemplo da UNASUL, consolidou-se como um palco para a esquerda latino-americana pôr em relevo, as suas pretensões ideológicas. Com isso, vários países, Brasil incluído, deixaram de participar de suas reuniões.

A UNASUL, por sua vez, perdeu seis de seus 12 integrantes e para ser reativada, será necessário um novo tratado constitutivo, algo difícil de ser aceito e ratificado por Brasil, Equador, Paraguai e Uruguay, que são contrários à iniciativa. Esses países desejam mesmo é que haja uma integração entre o MERCOSUL e a Aliança do Pacífico, do qual a Colômbia participa.

Ainda não há sequer uma pista acerca de como o presidente colombiano pretende lidar com as diferenças políticas no seu entorno. A conversa com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Carlos França, foi curta e desprovida de objetividade, apesar da Colômbia ser um dos maiores parceiros comerciais do país na América Latina. Em 2021, os dois países tiveram o seu melhor desempenho comercial, atingindo US$ 5,36 bilhões em trocas. Tudo indica que Gustavo Petro vai aguardar o desfecho das eleições de outubro, para decidir que tipo de relação pretende construir com o Brasil. Não é nenhum segredo que ele aposta todas as suas fichas no candidato de esquerda para ter, no Brasil, um aliado carnal.

Por Marcelo Rech

InfoRel

Imagem: Luisa Gonzalez/ Reuters